Monthly Archives: Maio 2009

Finais dos anos 70 – D. Berta recebe Cooperantes Portugueses

“… Bissau D.Berta2A portuguesa, de origem cabo-verdiana, Berta Bento, destaca os aspectos positivos, apesar de se recordar da penúria alimentar da segunda metade dos anos 70, após a retirada de Portugal. A conhecida D. Berta, condecorada pelo ex-Presidente Mário Soares e proprietária da Pensão Central, o mais antigo restaurante da Guiné, vive há mais de meio século no país. «A única vez que senti medo foi no início da independência, quando alguns guineenses provocavam os portugueses dizendo-lhes ‘vai-te embora’. Um rapaz entrou na pensão e perguntou se hospedava portugueses. Fiquei nervosa, e só acalmei ao saber que ele vinha à procura de amigos. Então indiquei-lhe o andar de cima». Esses portugueses eram o primeiro grupo de 75 professores cooperantes, a quem D. Berta dava de comer, a pedido de Mário Cabral, então ministro da Educação, numa altura em que era complicado encontrar comida em Bissau…”

Autor: Fernando Jorge Pereira – FJP (Expresso, 10 Junho 2005)

1 Comentário

Filed under 1

OBRIGADO, MÃE BERTA

MÃE BERTA

São várias as gerações que têm o privilégio de a conhecer. Berta, para uns, tia Berta, para outros, avó Berta, para outros ainda, ou simplesmente D. Berta. Quem a conhece, sabe de antemão que, se houvesse uma madre em Bissau, Berta de Oliveira Bento seria a Madre Berta de Bissau.

Isto não é exagero algum. Talvez para quem a não conhece possa induzir num eventual exagero. É evidente que sou suspeito, pela relação de amizade que tenho o privilégio de ter com alguém que para mim é uma mãe. Mas não acredito que ninguém e que a conhece não seja igualmente suspeito.

Falar da mãe Berta não é fácil, mas também não é difícil. É avessa a protagonismos, sempre com um sorriso encantador, palavras doces e sábias, que são impossíveis de não as ouvir.

Creio, sinceramente, que a homenagem no site/blog é mais que merecida, embora o reconhecimento que todos nós lhe devemos, por tudo o que fez por meia Guiné-Bissau e meio Portugal, seja a razão da, juntos, lembrá-la sempre com carinho.

Mais, creio que todos os que sabem desta homenagem e que estão espalhados pelo mundo inteiro – há pessoas, a título de exemplo, em Timor-Leste – estão hoje aqui, connosco, para lhe dar um beijo.

Mas o que dizer de uma pessoa que vem para a Guiné em 1948 com uma licença de 30 dias e que por lá está há…61 anos?

O que dizer de uma pessoa que mantém amizades com centenas, arrisco-me a dizer milhares, de cidadãos do mundo e que tem uma facilidade espantosa em criar diariamente outras.

O que dizer dos seus amigos que, diariamente também, a acompanham nalguns casos há mais de 30 anos? Não é verdade Armando Gomes , há 34 anos a trabalhar como cozinheiro na Pensão Central? Não é verdade Alves Té, que está lá há 18? Não é verdade Laurinda Cardoso, há 17? Não é verdade, Inácio Bíquer, há 10? Peço desculpa por não citar todos, mas, se continuasse, nunca mais pararia.

A mãe Berta trata-nos como filhos, os filhos que nunca teve, porque, sustenta, “Deus não quis”. Passe a expressão e a presunção, assim tratou, por exemplo, Otelo Saraiva de Carvalho, António de Spínola, Luís Cabral , “Nino” Vieira, entre tantos, tantos outros.

Assim trata os milhares e milhares de amigos que passam pela sua vida. Que se saiba, deve ser a única pessoa no mundo que não tem inimigos. 

Ainda hoje, e já lá vão 46 anos de Pensão Central, sacia a fome de muitos os que lhe surgem pela frente e que não têm dinheiro para pagar. Ainda hoje, abre sempre aquele sorriso doce a quem lhe surge pela frente, quanto mais não seja apenas para desabafar.

Há sempre uma palavra de conforto, uma sabedoria própria e frases oportunas que nos animam e que nos obrigam a continuar em frente.

Falar da mãe Berta é falar também da brincalhona, da Berta que, muitas vezes, no meio desse sorriso encantador, mostra o matreiro. No bom sentido, é evidente.

Quantos e quantos de todos aqueles que a conhecem ficam desconcertados com as suas brincadeiras, com as suas frases certeiras, que, a princípio, não nos damos conta, mas que, depois, acabamos por rir às gargalhadas, entrando num mundo que só a “mãe” Berta sabe criar.

Não sei, mãe Berta, quanto lhe devo. Não sei, também, mãe Berta, quantos são os que lhe devem e quanto lhe devem. Sei apenas que a minha vida ficou muito mais enriquecida desde que a conheci. Sabemos todos, creio, o valor da sua amizade incondicional.

Para terminar, e lembrando que sou jornalista, não posso deixar de fazer um pequeno apontamento, uma pequena crítica. A mãe Berta é de Cabo Verde, é certo, da ilha do Maio, tal como diz a mãe Berta, “ a ilha mais bonita do mundo”.

Mas está na Guiné há 58 anos, muito mais de metade da sua vida. Seria bom que as autoridades guineenses também reparassem que há uma Senhora que merece ser reconhecida a nível nacional por tudo aquilo que continua a fazer pelo país.

Uma homenagem? Uma estátua? Uma rua? A mim, isso já não me interessa. Para mim, e penso que falo em nome de muitos de nós, o nome de Berta de Oliveira Bento está perpetuado há muito nas nossas memórias e bem junto aos nossos corações.

OBRIGADO, MÃE BERTA.

José Sousa Dias

5 comentários

Filed under 1

Artigo Público 5Julho 2008

Bissau D.Berta1

Adeus Bissau
 
 
 
Da varanda de trezentos e sessenta graus da Pensão Central vejo o deserto escuro de Bissau lá em baixo, a noite riscada pelas luzes fugazes dos automóveis. Atrás dos vultos dos edifícios coloniais, há clarões que resistem até certa hora, a hora de serem desligados os geradores privados.

Da varanda da Pensão Central filmo nas sombras em trânsito da capital decadente uma regularidade visível, a da iluminação pública, notável pela ausência nas ruas. Já nas moransas das gentes guineenses, a história é diversa, contada com ironia conformada. É fala de amigos do Bairro dos Coqueiros, entre cerveja importada, camarão e ostras dos tarrafes: “Luz bim, luz bai”.

Inconstância que se ilumina e apaga todos os dias, sempre com hora desmarcada.

Mistério da véspera: uma “Electricidade e Águas da Guiné”, na rua Eduardo Mondlane. Entro no edifício sombrio empurrado pela curiosidade. À porta, há clientes com fantasmas de facturas penduradas nos dedos. Atrás das secretárias, rostos atarefados com bocejos.

Da varanda da Pensão Central, na madrugada opaca e quente de Bissau, não vislumbro a cidade oculta pelas trevas, nem tão-pouco os abutres. Mas sei que eles estão ali, algures nas turvas cloacas da obscuridade, como diria Garcia Lorca, retomando o fôlego para os voos diurnos sobre a carcaça urbana. Como estão, também, as valas, que foram de saneamento, agora a céu aberto, ladeadas para a eternidade pelas pesadas lajes que as cobriram. Lição que se aprende depressa: saída nocturna em Bissau pede lanterna, remédio para não desconjuntar os ossos.

Da varanda da Pensão Central não vejo a Praça do Império, congelado topónimo colonial que mora também no bojo da escuridão. No exacto umbigo do largo, uma Maria da Fonte, robusta que nem camponesa minhota ou soviética operária, ainda troca as voltas aos heróis. O abcesso ficou, raspadas da pedra as quinas, a esfera armilar e outras obscenidades. O único sinal da guerra de há dez anos jaz ao lado: o ex-Palácio do Governo, cadáver de mármore crivado de balas, esventrado pela chuva de obuses lançada pelos fiéis de Ansumane Mané já no epílogo da fraterna zaragata.

Último dia em Bissau. Vista da varanda de trezentos e sessenta graus da Pensão Central, a cidade parece ainda mais parda, o ar pesado, irrespirável: o mercúrio deu um súbito salto nos termómetros.

Despeço-me de D. Berta e digo adeus aos banhos de caneca às escuras na velha casa de estilo colonial gaulês.

Desço as escadas metálicas da pousada, apanho um táxi para o aeroporto, na contracorrente de lustrosos jipes e outras carripanas de insólito luxo. No dia do voo semanal para Lisboa a negociação ressentese.

Mil francos CFA estão bem e “ka tem problema”: no caminho podem entrar quantos passageiros houver.

Os aeroportos são como fronteiras, são fronteiras.

Documentos, controlos, barreiras, perguntas severas. Mas a Guiné exporta-se, e não apenas no artesanato anódino para turistas papalvos, não apenas no óleo de palma, no caju, nas mangas, nas papaias que seguem nos quilos mais ou menos clandestinos dos passageiros. Meia hora antes da partida, regressa o surreal do checkin matinal. Os controlos de bagagem, por avaria dos ex-raios X e outras maquinarias similares, são diligência abreviada, resolvida num relance preguiçoso, enfastiado procedimento que honra os passageiros com agradecidas declarações de confiança.

Quando a grande nave levanta voo, depois de quase uma hora de sauna grátis em plena placa aos viajantes embarcados, deve levar muito mais do que líquidos, pomadas, cremes da barba ou outras substâncias fatais proscritas pelas normas de segurança. Quando a grande nave levanta voo, para se introduzir horas depois no espaço aéreo europeu e descer, qual cavalo de Tróia, sobre uma capital do Velho continente, leva uma certa África no ventre. Como não acreditar que fará aterrar no coração de uma capital europeia as incertezas e imponderabilidades de um país improvável?

Humberto Lopes

 

Deixe um comentário

Filed under 1