Artigo Público 5Julho 2008

Bissau D.Berta1

Adeus Bissau
 
 
 
Da varanda de trezentos e sessenta graus da Pensão Central vejo o deserto escuro de Bissau lá em baixo, a noite riscada pelas luzes fugazes dos automóveis. Atrás dos vultos dos edifícios coloniais, há clarões que resistem até certa hora, a hora de serem desligados os geradores privados.

Da varanda da Pensão Central filmo nas sombras em trânsito da capital decadente uma regularidade visível, a da iluminação pública, notável pela ausência nas ruas. Já nas moransas das gentes guineenses, a história é diversa, contada com ironia conformada. É fala de amigos do Bairro dos Coqueiros, entre cerveja importada, camarão e ostras dos tarrafes: “Luz bim, luz bai”.

Inconstância que se ilumina e apaga todos os dias, sempre com hora desmarcada.

Mistério da véspera: uma “Electricidade e Águas da Guiné”, na rua Eduardo Mondlane. Entro no edifício sombrio empurrado pela curiosidade. À porta, há clientes com fantasmas de facturas penduradas nos dedos. Atrás das secretárias, rostos atarefados com bocejos.

Da varanda da Pensão Central, na madrugada opaca e quente de Bissau, não vislumbro a cidade oculta pelas trevas, nem tão-pouco os abutres. Mas sei que eles estão ali, algures nas turvas cloacas da obscuridade, como diria Garcia Lorca, retomando o fôlego para os voos diurnos sobre a carcaça urbana. Como estão, também, as valas, que foram de saneamento, agora a céu aberto, ladeadas para a eternidade pelas pesadas lajes que as cobriram. Lição que se aprende depressa: saída nocturna em Bissau pede lanterna, remédio para não desconjuntar os ossos.

Da varanda da Pensão Central não vejo a Praça do Império, congelado topónimo colonial que mora também no bojo da escuridão. No exacto umbigo do largo, uma Maria da Fonte, robusta que nem camponesa minhota ou soviética operária, ainda troca as voltas aos heróis. O abcesso ficou, raspadas da pedra as quinas, a esfera armilar e outras obscenidades. O único sinal da guerra de há dez anos jaz ao lado: o ex-Palácio do Governo, cadáver de mármore crivado de balas, esventrado pela chuva de obuses lançada pelos fiéis de Ansumane Mané já no epílogo da fraterna zaragata.

Último dia em Bissau. Vista da varanda de trezentos e sessenta graus da Pensão Central, a cidade parece ainda mais parda, o ar pesado, irrespirável: o mercúrio deu um súbito salto nos termómetros.

Despeço-me de D. Berta e digo adeus aos banhos de caneca às escuras na velha casa de estilo colonial gaulês.

Desço as escadas metálicas da pousada, apanho um táxi para o aeroporto, na contracorrente de lustrosos jipes e outras carripanas de insólito luxo. No dia do voo semanal para Lisboa a negociação ressentese.

Mil francos CFA estão bem e “ka tem problema”: no caminho podem entrar quantos passageiros houver.

Os aeroportos são como fronteiras, são fronteiras.

Documentos, controlos, barreiras, perguntas severas. Mas a Guiné exporta-se, e não apenas no artesanato anódino para turistas papalvos, não apenas no óleo de palma, no caju, nas mangas, nas papaias que seguem nos quilos mais ou menos clandestinos dos passageiros. Meia hora antes da partida, regressa o surreal do checkin matinal. Os controlos de bagagem, por avaria dos ex-raios X e outras maquinarias similares, são diligência abreviada, resolvida num relance preguiçoso, enfastiado procedimento que honra os passageiros com agradecidas declarações de confiança.

Quando a grande nave levanta voo, depois de quase uma hora de sauna grátis em plena placa aos viajantes embarcados, deve levar muito mais do que líquidos, pomadas, cremes da barba ou outras substâncias fatais proscritas pelas normas de segurança. Quando a grande nave levanta voo, para se introduzir horas depois no espaço aéreo europeu e descer, qual cavalo de Tróia, sobre uma capital do Velho continente, leva uma certa África no ventre. Como não acreditar que fará aterrar no coração de uma capital europeia as incertezas e imponderabilidades de um país improvável?

Humberto Lopes

 
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