Hoje ninguém está à minha espera para o almoço!

Hoje, 28 de Julho de 2009, dois dias depois da segunda volta das Eleições Presidenciais Antecipadas, Bissau está calma, esperando o anúncio oficial de quem será o próximo Presidente do país. O sol bilha nos intervalos da chuva, que lava as ruas, as plantas e os táxis azuis e brancos que se movimentam pela cidade.  A tinta das casas começa a desaparecer e as ruas vão ficando cada vez  mais esburacadas da tareia que levam da chuva quando esta decide caír selvagem arrasando tudo, levando telhados, árvores, antenas.

Tal como no resto do mundo não há aqui nada de novo, tudo se repete ciclicamente desde a época das chuvas, às eleições, às pessoas deambulando coloridas pelo Mercado de Bandim, às canoas perdendo-se no mar dos bijagós, desta vez com as urnas e os membros das mesas de voto lá dentro, e a mão dos deuses parece estar sob tudo isto, protengendo-nos apesar de todas as dificuldades e de todas as adversidades.

Não tenho especial afeição por cidades, na verdade naquilo que é essencial parecem-me todas mais ou menos iguais. Bissau, no entanto, sempre teve algo forte e especial que a distingue de todas as outras que é o facto de ter algo que a aproxima à Terra. Isto é, encontramos em Bissau algo semelhante àquilo que temos na nossa terra, uma raíz, uma mãe, uma avó, uma tia, depende do que queiramos chamar-lhe: a Dona Berta! 

arton29353

Berta de Oliveira Bento, sentadinha na varanda da Pensão Central, sempre com um sorriso e os braços abertos para receber quem se queira sentar, é a raínha da partilha. Partilha o que tem, às vezes mesmo o que não tem, partilha os seus conhecimentos, o seu saber intuitivo, a sua comida, o seu amor, sem exigências, sem ambiguidades, clara e incondicionalmente. Dos seus ensinamentos há frases e princípios que jamais esquecerei: Vanda a sorte está na planta dos pés e na ponta dos cabelos, disse-me tantas vezes a Dona Berta; ou: a alegria traz alegrias,eu nasci para ser feliz ; ou, ainda: quando alguém nos faz mal a melhor forma de ajudarmos essa pessoa é fazer-lhe o bem…. Tantas frases bonitas e sábias que ouvi da d. Berta, tantas… sentada com ela na varanda ou à sua mesa na hora de almoço…  

Canto Mesa

Hoje Bissau parece-me mais pobre do que nunca, e igual a qualquer outra cidade, com as portas da Pensão Central fechadas e a cadeira da D. Berta vazia na varanda. Hoje ninguém está à minha espera para o almoço e os arrepios de frio que a chuva traz quando nos bate no corpo, arrefecem-me a alma e trazem-me um sentimento de vazio e falta: as saudades da Avó Berta!

vanda medeiros

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3 comentários

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3 responses to “Hoje ninguém está à minha espera para o almoço!

  1. Sílvia Azevedo

    Vanda, é sempre muito bom “ler-te”. Acho que consigo perceber a tua nostalgia, pois no fundo, todos desenvolvemos um sentimento especial pela nossa Guiné, porque entre avanços e recuos nos nossos trabalhos havia sempre Alguém que dava um “toque” especial à nossa estadia: a fantástica D. Berta. Avó, como sempre lhe chamei, desde o dia em que a conheci, pois o amor que nos dedicava era-me muito familiar…não imagino o que seria regressar a Bissau sem ir directa dar-lhe um abraço e nem quero imaginar, porque ainda hoje o sorriso da Avó Berta e as “conversas de ombro” continuam muito presentes no meu dia-a-dia…

  2. João Pedro Campos

    Senti precisamente a mesma coisa quando aí estive em Junho… A D. Berta, a sua presença, a sua espera, é uma das melhores memórias que tenho dos tempos que passei em Bissau.
    Da última vez, dei comigo a andar em direcção à Pensão Central, mesmo depois de já saber que a D. Berta não estava… Os meus pés iam para lá!?
    Acabo de ler alguns livros sempre em lugares que para mim são especiais e foram alguns os que acabei de ler sentado na varanda, com calor, com chuva, com vento fresco, com a vida a correr lá em baixo, à distância de um olhar, de um rápido descer de escadas…
    Encontrei a D. Berta aqui, na sua casa de Campo de Ourique. Conversámos durante tanto tempo, sentados lado a lado, como fazíamos em Bissau… Na rua, lá em baixo, corria a vida… Acho que na outra varanda, sentado, estava o Alves e a comida estava mesmo quase pronta, sopa, carne, peixe, banana, café… Já tinham começado as primeiras chuvas e estava fresco, cheirava a Terra.

    jpc

    • Maria Júlia Jaleco

      Quando volta a Avó Berta a Bissau? Faz falta lá, sim, mesmo estando em Portugal sinto que faz! Foi também naquela varanda da Pensão Central que, há sete anos, repousando da viagem de Canchungo, acabei de ler “Ébano” – lembrei-me disso ao ler o comentário de jpc, que não conheço.
      Volte para lá, D. Berta, com a saúde em ordem e a sua alegria e força de vida – e guarde-me almoço que um dia eu volto também…

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