Artigos

p1010069

Recolha de textos sobre a Pensão Central e a D. Berta

12 responses to “Artigos

  1. azevedom

    MADRE BERTA DE BISSAU

    Por Vanda Medeiros

    Bissau é uma cidade portuária, inicialmente situada à beira do porto de Pindjiguiti, a zona antiga da cidade. Há, na Guiné-Bissau, um dito popular que diz que quem bebe daquelas águas nunca mais esta terra lhe sai de dentro, tem sempre de voltar. São as águas enfeitiçadas pelo sangue derramado no massacre de 03 de Agosto de 1959, quando as forças coloniais abateram a tiro dezenas de estivadores e prenderam um número ainda maior de outros, na sequência de uma greve por melhores condições de trabalho, dando o mote para o início da luta armada contra o exército português, o que aconteceria quatro anos mais tarde, em 1963.
    Foi nesse mesmo porto que, em 1948, Berta de Oliveira Bento desembarcou, pelas 23h00, numa noite quente e húmida de 30 de Junho. Fora para Bissau com uma licença de trabalho de 30 dias. Ali ficou… até hoje.
    Desde então passaram 57 anos, muito aconteceu. Foi espectadora privilegiada de diversos acontecimentos que marcaram a História da antiga colónia portuguesa, que viria a ascender à independência em 1973. Depois, assistiu aos anos da governação do partido único e a sucessivos golpes de Estado. Assistiu também aos primeiros passos da liberalização económica e à abertura ao pluralismo político, os primórdios de uma sociedade democrática que, aos tropeções, preservou a instabilidade permanente em que se encontra a Guiné-Bissau desde então e sentiu como muitos guineenses uma guerra civil dura e devastadora. Nada a deixou indiferente nem resignada, mas a sua obstinação por um mundo melhor manteve-se sempre de pé.

    Natural de Cabo Verde, conta com os seus olhos matreiros mas sempre sorridentes que os seus avós paternos, portugueses do Porto, naufragaram numa viagem de barco, acabando por desembarcar na Ilha do Maio, terra que os acolheu e em que juraram permanecer até que Deus queira e a morte os leve.
    Filha de pais portugueses, e neta de avó materna guineense, nasceu a 13 de Julho de 1925, na Ilha do Maio, a qual descreve sempre como “a ilha mais bonita de Cabo Verde”.
    Em 1936, após a morte da mãe, muda-se para a Cidade da Praia, na ilha de Santiago, onde é obrigada a interromper os estudos. Fica a viver e a trabalhar com um tio numa empresa de importação e exportação. Berta tinha na altura 11 anos, mas começou a trabalhar aos 7, quando ia buscar café e tabaco para os pais, que eram comerciantes.

    Doze anos mais tarde chega a Bissau para assistir ao nascimento de um sobrinho. A gravidez não correu bem e a irmã teve de partir para Portugal, onde acaba por ficar até ao fim da vida, deixando Berta, com 23 anos, a viver na sua casa e a tomar conta das suas coisas. Entretanto, a licença de trabalho expira e perde o emprego em Cabo Verde.

    Em Bissau começou por trabalhar como funcionária da administração civil do Governo Provincial Português. Em 1955 demite-se dessas funções e estabelece-se por conta própria, no ramo ligado às importações e exportações. Importava géneros alimentares de Cabo Verde – carnes, milho, feijão – e exportava arroz, madeira, sal, ainda na base da permuta. Sete anos mais tarde, em 1962, lança-se na indústria hoteleira assumindo a gerência da Pensão Avenida, em Bissau. Um ano mais tarde, começa a gerir a Pensão Central, onde permanece, até hoje.

    Em 1965, casa com Américo Rosário Dias, um técnico de electricidade, natural de Lisboa, que viria a falecer em 1993, vítima de doença prolongada. Viúva e sem filhos, assume nessa altura, sozinha, a gestão da Pensão Central.

    Sentada numa das casas mais antigas de Bissau já viu muita coisa acontecer. São histórias de guerra e de paz, de encontros e de desencontros, de alegria e de dor, que, a muito custo, aceita começar a contar.

    Sem se pretender cair na repetição da sucessão de acontecimentos, D. Berta, que não gosta, mas não gosta mesmo, de falar sobre o passado, o seu passado, lembra que assistiu à proclamação da Independência e à guerra que a antedecedeu. Viu o país construír-se e destruir-se. Assistiu às primeiras eleições democráticas, em 1994, e aos golpes de Estado que têm vindo a marcar a história do país.

    Nunca quis falar de política nem dos políticos mas lá acabou por dizer que desde que a democracia chegou à Guiné-Bissau, em 1991, o país nunca mais teve sossego, nem estabilidade.
    “Não quero um Estado ditador, mas esta democracia que querem não tem nada a ver com a Guiné. As pessoas ainda não estão preparadas para isso. É preciso africanizar a democracia, caso contrário não funciona”.

    Sentada na varanda da Pensão Central, com o peso dos seus 80 anos no corpo e os pés inchados devido à má circulação, Berta não pode mover-se facilmente. No entanto, assume sozinha o controlo de tudo, com o apoio de nove funcionários, alguns a trabalhar consigo há 35 anos, como é o caso de Armando Gomes ou de Laurinda Cardoso que há 19 anos que está lá.

    Dá conta dos oito quartos no 2º andar, do restaurante no 1º e do bar dos gelados no rés-do-chão. Sobra-lhe ainda tempo e boa disposição para brincar, ouvir, aconselhar, ajudar quem vem sentar-se na sua mesa, na sua varanda, falando das tristezas e alegrias da vida. Não tem filhos e também já não tem marido, mas é detentora de um amor universal, dir-se-ia mesmo incondicional, é a “mãe”, a “avó”, a “tia” dos guineenses e portugueses que a procuram e que a todos recebe e acarinha como filhos, netos e sobrinhos.

    As suas pernas já não obedecem como gostaria, mas o seu pensamento é livre e sem idade, e o seu olhar vê longe, muito longe, quase sem precisar de se levantar da sua cadeira. De coração grande e mãos abertas, dá a todos de diversas formas, desde a sopa que faz para os doentes do Hospital Nacional Simão Mendes, ao dinheiro que dá àqueles que dele necessitam para medicamentos, para comer, para a escola; desde as refeições que oferece na sua casa, matando a fome a quem não pode pagar, à reforma que paga aos trabalhadores que por longos anos a acompanharam e que, por algum motivo, deixaram de poder trabalhar com e para ela.

    Dá apoio logístico, família e amor a duas ONG portuguesas (FEC – Fundação Evangelização e Culturas – e ISU – Instituto de Solidariedade e cooperação Universitária) que intervêm na Guiné-Bissau, funcionando a sua casa como sede e ponto de encontro dos voluntários que trabalham no interior do país e que, quase semanalmente, vêm à Pensão Central, nem que seja para se sentarem um pouco junto da Avó Berta, comer da sua comida, rir com ela. Todos os anos recebe equipas de 10 a 12 pessoas (através da FEC) e grupos de voluntários na estação das chuvas (ISU) e todos partem de Bissau com a lágrima ao canto do olho e uma Avó no coração.
    Quem por lá passa, neste tipo de trabalho, descreve o apoio que a D. Berta dá como um enquadramento fundamental para que a sua intervenção tenha sucesso. Pois o conhecimento desta Avó e o próprio espaço, Pensão Central, são ao mesmo tempo a base afectiva que o expatriado não tem e a protecção e integração no meio, que individualmente seria muito mais difícil de realizar.

    De facto, no âmbito da cooperação para o desenvolvimento, a D. Berta teve e tem um papel fundamental. Logo após a independência começou a dar apoio a cooperantes portugueses quando recebeu na sua casa 75 professores enviados pelo Ministério da Educação. Não podendo alojá-los a todos, ficaram 18 a viver na Pensão Central e os outros foram distribuídos por outras residências. No entanto, era em sua casa que aqueles 75 professores faziam as refeições. “Tinha muita pena dos cooperantes portugueses, aqui sozinhos. Tive de os ajudar”.

    Desde então, a sua casa tem sido sempre um ponto de apoio aos portugueses residentes, cooperantes, turistas, diplomatas, visitantes. Com marcas visíveis de duas guerras, é um edifício tipicamente colonial, de dois andares, circundados por uma varanda, numa das principais ruas de Bissau, a Avenida Amílcar Cabral.

    Desde 1993 a sua casa é também a sede de trabalho de ONG portuguesas que intervêm no país. E se se contabilizar o número de pessoas que pela Pensão Central passaram, só em trabalho de cooperação, com a ONG GÁS AFRICA, com a FEC ou o ISU, chega-se facilmente às 2.000 pessoas.
    Nunca teve filhos, pois “Deus não quis”, mas é uma mãe para muitos guineenses e deve ter no total mais de 4.000 netos, em Portugal e espalhados pelo resto do mundo. À excepção de Tristão Vaz, todos os portugueses mundialmente conhecidos já por ali passaram… Que o digam Otelo Saraiva de Carvalho, António Spínola, Ramalho Eanes e até Mário Soares…

    Quando rebentou a Guerra Civil de 7 de Junho de 1998, albergou e alimentou inúmeros portugueses e ficou em sua casa no início do conflito. “Sentei-me atrás da porta, na sala de jantar, e soltei os cães na varanda”, até que, depois de muita insistência da parte dos amigos, se mudou para a residência do seu vizinho Henrique Rosa e depois para a embaixada portuguesa em Bissau. Finalmente, a 30 de Junho de 1998, precisamente 50 anos depois, deixa a Guiné-Bissau, de barco, partindo para Portugal como refugiada, onde permanece durante 11 meses, segundo conta, os mais longos da sua vida. Apesar de ter partilhado momentos de felicidade junto da sua família e amigos, que nem por um dia a deixaram só, sofreu muito… com o frio.
    Na viagem de Bissau para Lisboa, torna a pisar Cabo Verde, onde apenas conseguiu ver a Cidade da Praia ao longo de seis curtas horas e até hoje não voltou lá.

    A 28 de Maio de 1999 regressa a Bissau encontrando a sua casa intocada, resguardada dos assaltos de que foram vítimas quase todas as residências da cidade. Apenas contou dois buracos numa das janelas, provavelmente provocados por outras tantas balas perdidas.
    Fala da morte do seu marido e do conflito militar de 1998/99 como os dois acontecimentos mais tristes e marcantes da sua vida. No entanto, o seu rosto não perde a alegria nem o sorriso o encanto. Diz mesmo que, com todas as tristezas que a vida lhe reservou, nasceu para ser feliz. “É preciso ter o espírito alegre. O espírito triste traz azar”. Refém das águas de Pindjiguiti, com o seu olhar sábio e sorriso malandro, brinca e é a brincar que fala de coisas sérias e profundas, aconselha.
    Diz que vê mais a dormir do que acordada e que nos seus sonhos muita coisa lhe é revelada. Sonhou com o guerra de 1998, 15 dias antes de acontecer. “Sonhei com a rua cheia de militares e o Presidente a passar num carro com uma arma apontada ao pescoço”.

    Com a instabilidade que se tem sentido nos últimos meses em Bissau, devido às eleições presidenciais, diz que, ainda que aconteça outra guerra, daqui não sai mais.
    “Se houver outra guerra na Guiné não vou a lado nenhum, deito-me no chão da minha sala e entrego-me a Deus”. Aconteceu-lhe o mesmo que acontece a muitos daqueles que saem do seu país, que se afastam da sua família e não mais conseguem regressar a casa. D. Berta é de Cabo Verde mas, como ela própria costuma dizer, possui três nacionalidades, cabo verdiana, portuguesa e guineense. Foi na Guiné-Bissau que descobriu o sentido da sua vida, a sua missão no mundo e por isso não pode mais partir.

    Não guarda rancor de ninguém, mesmo dos que, por vezes, passam na pensão e partem sem pagar ou a enganam. Diz que quer ter uma morte santa e por isso mantém o coração livre de ódio e ressentimento.

    Em 1994, o então presidente português Mário Soares condecorou-a com a Medalha de Mérito. O Governo de Cabo Verde está para agraciá-la com idêntica distinção desde Maio de 2004 e pretende fazê-lo numa cerimónia em Santiago, no dia 05 de Julho deste ano.

    FIM

    • Guadalupe

      Bom dia.
      Tento há vários dias contactar a Dª Berta. Tenho colegas que vão passar pela Guiné e precisam de um bom lugar para ficar.
      Qual é o melhor telefone?
      Tem algum endereço de e-mail?

      Obrigada

  2. azevedom

    Entrevista com a D. Berta – Boletim das Oficinas de Língua Portuguesa Abril 2007

    http://www.ipad.mne.gov.pt/images/stories/Ficheiros/boletimn5.pdf

  3. Mónica Azevedo

    Avó de todos os portugueses, homenageada por governo de Cabo Verde

    Bissau – A avó cabo-verdiana de todos os portugueses radicados na Guiné-Bissau, Berta de Oliveira Bento, recebe na sexta-feira do governo de Cabo Verde a condecoração por mérito, numa cerimónia a realizar na Embaixada de Portugal em Bissau.

    Já condecorada por Portugal, em 1994, com a medalha de mérito atribuída pelo então presidente português Mário Soares, Berta Bento, ou avó Berta como é carinhosamente tratada por todos que a conhecem, aguarda desde 2004 a condecoração do seu país.

    “Estou muito feliz e emocionada, porque estou a viver na Guiné-Bissau há 63 anos”, afirmou a avó Berta à Agência Lusa, sublinhando que sexta-feira é um dia para festejar. Berta Bento, de 82 anos, é uma das figuras mais carismáticas da Guiné-Bissau, tendo a sua vida sido já retratada em vários jornais mundiais, nomeadamente no britânico Financial Times.

    Neta de um português de Santa Comba Dão, grande comerciante em Cabo Verde na época colonial, Berta Bento chegou a Bissau para ajudar uma irmã que estava grávida. Mas a estada, que deveria ser só de um mês, foi prolongada por amor a um português com quem acabaria por casar e fundar a Pensão Central, no centro da cidade de Bissau.

    “Vim apenas por um mês de férias, mas depois apaixonei-me por um português e nunca mais sai da Guiné-Bissau”, contou à Lusa. Foi na Pensão Central que recebeu, a 25 de Janeiro de 1975, os primeiros 75 cooperantes portugueses do pós independência, a pedido do ministro da Educação guineense. Desde então, a avó Berta e a Pensão Central recebem com frequência cooperantes portugueses, nomeadamente de várias organizações não-governamentais.

    Outra das particularidades da avó Berta é a de apenas sair uma vez por ano da pensão. A saída, com traje a rigor, acontece a 10 de Junho para comemorar o Dia de Portugal na embaixada portuguesa em
    Bissau. “Este ano vou sair duas vezes”, disse entre sorrisos.

    Sobre as histórias que tem para contar, a avó Berta referiu que se emociona sempre muito, mas um dos “momentos mais felizes” foi a altura em que recebeu os primeiros cooperantes portugueses.

    Na sexta-feira, depois de receber a condecoração, a avó regressa à pensão de onde só tenciona voltar a sair a 10 de Junho.

    Enviado por Inforpress/Lusa
    31-Jan-2008

  4. Mónica Azevedo

    “Aquilo sim, era bife. O Santos tinha a arte de cortar a carne. Não era nada para comparar com os bifes de gazela que, às vezes, comia na “pensão da Berta”, onde a comida era sempre igual, mantendo-se esta instituição a funcionar com o mesmo paladar, quer antes quer depois da independência e mesmo durante os períodos maus em que escasseavam os géneros…”

    in “Crónica dos novos feitos da Guiné”, António Ferro, Europress, 1995

  5. Mónica Azevedo

    Emoção, por ter passado em revista todos aqueles lugares, agora desoladamente degradados, por onde vagueei:

    – a Praça do Império

    – o Palácio do Governador nas traseiras do qual se situava a messe da MM [Manutenção Militar]

    – o lugar onde ficava a esplanada do Café Bento, agora transformado em posto de venda de combustíveis

    – o Mercado Central que exalava aquele cheiro pestilento do peixe a secar ao Sol

    – a antiga Avenida do Império, onde se situava a catedral e o cinema da UDIB, que eu frequentei com alguma assiduidade, para assistir às sessões de cinema, às vezes interrompidas, quando chamado com urgência para abastecer os Unimogs ou as lanchas para partirem à noite para o mato.

    E as escapadelas ao Bairro do Cupelon [u Pilão], e as noitadas da cerveja e das ostras no Café Portugal? E as codornizes fritas do Zé da Amura?

    Que será feito do célebre Hotel Berta, onde se comiam os melhores gelados do Mundo?

    in “Bissau – Cidade de terra quente e argilosa”
    por Álvaro Mendonça de Sousa, blogueforanadaevaotres.blogspot.com

  6. Mónica Azevedo

    Meu caro
    O Hotel D. Berta como lhe chama (de facto chama-se Pensão Central) lá continua com a inevitável D. Berta ao leme.
    Gelados, claro que continua a haver. Se são os melhores do mundo é discutível mas que sabiam a isso é indiscutível. Também lá os comi.

    in “Bissau – Cidade de terra quente e argilosa”, Silva, blogueforanadaevaotres.blogspot.com

  7. Mónica Azevedo

    (…) Já tinha caído a noite quando regressámos à pensão da D. Berta. Este era o único edifício da rua que aparentemente tinha luz eléctrica. No caminho do mercado à pensão tínhamos visto mais uns quantos, mas não muitos… Bissau à noite vive mergulhada na escuridão, os quase inexistentes postes de luz estão apagados e são muito poucas as casas que têm gerador próprio. Disseram-nos que, de vez em quando havia luz da rede pública, por enquanto ainda não tivemos a oportunidade de o constatar.
    A pensão da D. Berta é um ícone de Bissau, arrisco-me até a dizer do próprio país. A D. Berta, ou avó Berta como também lhe chamam, é uma senhora Cabo-verdiana de 83 anos que chegou a Bissau ainda na década de 40 por ter casado com um guineense. Era o marido o proprietário da pensão, mas após a sua morte ficou ela a responsável máxima e desde então, ainda que não seja essa a designação oficial do estabelecimento, quem vem a Bissau fica na D. Berta. O edifício ilustra a minha interpretação de algumas descrições de Hemingway da Cuba de outros tempos. O próprio clima quente e abafado e o sorriso na cara envelhecida da D. Berta sentada nas traseiras do balcão que circunda todo o edifício remonta-nos para outros tempos. Todos os dias o almoço e o jantar são servidos da mesma forma que o eram ainda na era colonial. Sopa, um prato de carne, outro de peixe e a sobremesa. O cliente escolhe apenas o que quer beber e sabe tão bem uma Cristal fresquinha neste calor tropical… (…)

    in “Bolg WC Gato, FVilasBoas, 23 Janeiro, 2008

  8. Roque Martins

    II – Breve Relato do 1.º Encontro de Ex-Cooperantes na Guiné acontecido em 26 de Janeiro de 2008 em Fátima

    A ideia nasceu há mais de dois anos. Levou tempo a amadurecer, mas, finalmente, concretizou-se. Com um número ainda pequeno de aderentes. Mas foi um encontro muito agradável. Alguns de nós não nos víamos desde os tempos da Guiné-Bissau, quer dizer há mais de 20 anos. À hora marcada, todos compareceram no restaurante A Grelha, em Fátima. Praticamente todos nos reconhecemos, apesar das naturais mudanças, com poucas excepções, pois alguns de nós estivemos na Guiné-Bissau em tempos não coincidentes. O Américo foi o último a chegar. O almoço foi longo, regado com o bom vinho da região e sobretudo com o entusiasmo e alegria que transparecia em todos os rostos. A conversa foi muito animada contando velhas histórias vividas em tempos imemoriais: quem não se lembra da velha Berta que alimentou gerações de cooperantes? Ou dos mosquitos? Dos ganhafotos? Dalgum paludismo? Das viagens até Bubaque, Varela? e outras partes do interior da Guiné? Das idas ao Senegal? Ou Cabo Verde?… Das aventuras laborais? Da simpatia dos guineenses? Dos mercados? Das frutas? Do Carnaval? Das cerimónias, dos rituais, dos amuletos?… Muitas destas peripécias foram relembradas no decorrer deste encontro. Relembramos velhas amizades, muitos dos conhecidos ausentes deste encontro, designadamente Rita e Jorge Catarino, Hélder Gonçalves, João Botelho, Fernanda Damâso, Frederico Silva; Ilda Felício, Tó Mané Reis, Rosa, Julieta, Carlos Silva, Francisco George, Tó Gravelho, Maria Cristina Pereira, Lys Samartinho (de saudosa memória), Isabel Nogueira e Mário Figueiredo, Gisela, Teresa Maia, Maria do Rosário e Gil, Adelino e Antero, Luísa Ramos, Fátima Sota e outros nomes mais que agora não me ocorre. Um velho rol de recordações de pessoas, situações, episódios, incidentes, alegrias, tristezas… muita história foi referenciada.

  9. Mónica Azevedo

    O BIG ficou sem dinheiro!

    Dona Berta tem o mesmo problema…
    Diante do BIGB fica a pensão Central, a mais antiga da capital. Além de partilharem a mesma localização – a Avenida Amílcar Cabral -, têm em comum o problema da falta de dinheiro. A proprietária é Berta Bento, uma sexagenária radicada há mais de 40 anos na Guiné e condecorada em 1994 pelo ex-Presidente Mário Soares, que a definiu como «cabo-verdiana de nascimento, guineense de adopção e portuguesa de coração».
    Tal como o banco, D. Berta também aguarda que contas antigas lhe sejam pagas pelo Estado, que através do Ministério da Saúde lhe deve 8 milhões de francos CFA (cerca de 2400 contos). Esse dinheiro permitiria adquirir um gerador, a fim de suprir a crónica penúria de luz eléctrica em Bissau, agravada nas últimas duas semanas, e que a levou a recusar oito clientes e a deitar fora mais de dez quilos de carne de primeira.
    Sentada à varanda da pensão, na tarde canicular do fim da época das chuvas, que este ano se prolongou excepcionalmente até Outubro, D. Berta lembra o seu amor pela Guiné, mas reconhece que já está ficando sem forças para manter o negócio e esperar por dias melhores que demoram a chegar. Esta impressão é largamente partilhada no país.

    Nando Coiaté – NC (2000)

  10. Zeca

    1956…ano em que fui para a terra de nome BISSAU…Tinha 3 anos.
    Com os meus pais lá vivi, percorrendo aquelas terras deslumbrando as paisagens das florestas impenetraveis.
    Durante o desenvolvimento da minha personalidade havia a D. Berta com quem os meus pais conviviam.
    Com 8 anos comecei a ir à pensão buscar comida para casa num conjunto de 3 marmitas de alumínio encaixadas umas nas outras terminando com uma tampa e uma tranca lateral para não derramar nada. Era a D. Berta que colocava sopa na primeira, depois o acompanhamento na segunda e por fim o conduto na última. Dizia-me: menino vai com cuidado para não derramar. Assim foi até aos meus 15 anos.
    Decorria o ano de 1968 quando regressamos a Lisboa. Nunca me esquece que ao sair do barco, bronzeado do Sol de África, as pessoas olhavam para nós, os que vinhamos de lá, como se fossemos algo de estranho.
    Muitos sorvetes comi feitos pela D. Berta, pessoa que está dentro do meu coração com muita saudade.
    Grande beijo para sí D. Berta do menino Zeca, filho de Sérgio Avelino Pereira.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s